sábado, 23 de junho de 2007

Feliz de dentro

Clarissa era feliz. Não como seus amiguinhos, não como seus pais. Não como aquelas pessoas que sorriem e acham que descobriram a fórmula do bem-viver. Era feliz de dentro, como dizia desde pequenina.

“Sou feliz de dentro”, repetia.

A avó não entendia. “Você é feliz por dentro, é isso?”

“Não, sou feliz de dentro”.

E lá ia para o parapeito da janela, observar as nuvens brancas no céu bonito.

De quando em quando, um beija-flor vinha bebericar a água do bebedouro. Mas Clarissa só olhava as nuvens.

“Sou feliz de dentro, feliz de dentro”.

A mãe a abraçou por trás. Tinha feito bolo. Mas o bolo tinha queimado.

“Viu? Por isso sou feliz de dentro”, disse Clarissa, com toda a pompa. “Comigo o bolo não queima”.

Da outra vez, Clarissa fez o bolo, bem do jeitinho que vovó uma vez lhe ensinara. E ele não queimou.

“Sou feliz de dentro”, sorriu, enquanto todos da casa comiam o bolo gostoso.

O cachorro Lelé balançou o rabinho. Clarissa lhe deu um pedacinho, bem aquele que tinha um morango. E ele ficou feliz de fora.

“Feliz de fora é quando a gente não sente”, disse Clarissa uma vez na escola. A professora não entendeu. “Não sente o quê?”, perguntou.

“Não sente que é feliz de dentro”.

Clarissa disse isso e correu para a janela da sala de aula. Lá em baixo as crianças corriam, brincando de pique.

A professora chamou a mãe de Clarissa, que chamou o pai, que chamou a avó, que chamou a filha do vizinho, que cuidava das crianças com imaginação demais.

“Ela tem é um distúrbio raro para sua idade”, falou com ar de seriedade. “Pensa como quem não é criança”.

“Então sou adulta?”

“Não, não é adulta, é criança. Mas uma criança diferente”.

Clarissa chorou. “Não quero ser diferente, quero ser feliz de dentro!”

Desde esse dia, Clarissa não sorriu mais. Quando voltava da escola, ficava na janela olhando as nuvens. Agora ela via que os beija-flores vinham por causa do açúcar da água do bebedouro.

Ela viu que o sol de vez em quando vinha bem nos olhos, e refletia no vidro da janela, e criava grandes formas de luz nas paredes do quarto cor-de-rosa.

E um dia viu um anjinho, que nem aqueles que se pendura na árvore de Natal. Mas não era de gesso, não. Era de verdade. Tinha olhos bem claros e cabelos como os fios de ovos que vovó punha nos bolos.

Ele veio em direção a Clarissa e a tocou nos ombros.

“Você acredita?”

Ela sorriu, e confirmou com a cabeça.

“Então, volta a ser feliz de dentro”.

Clarissa ficou triste.

“Não lembro mais como é. Acho que agora sou feliz de fora”.

O anjinho balançou a cabeça e chamou Clarissa para se sentar com ele no parapeito da janela.

“Se você acredita”, disse com sabedoria. “Então é feliz de dentro”.

O quarto ficou em silêncio.

Nesse momento, uma lágrima que saiu do olho de Clarissa ganhou asinhas, e voou para as nuvens.

Como as borboletas, todas as lágrimas que Clarissa chorava voavam lá para longe, de onde vinham as luzes que refletiam na parede rosa.

E as cores começaram a dançar em volta de Clarissa e do anjinho, e os dois se deram as mãos, e valsaram como num sonho.

“Sou feliz de dentro”, Clarissa repetiu, ganhando confiança. “De dentro”.

“Somos felizes de dentro”, o anjinho completou, sorrindo como o sol.

A partir desse dia, Clarissa voltou a sorrir. As nuvens voltaram a ganhar formas de barquinhos e peixes, e todo beija-flor que chegava vinha só para beijar o rosto de Clarissa.

Feliz de fora, só os outros. As crianças, os pais, os adultos e as mulheres que cuidavam de quem imaginava demais. Todos que não acreditavam. Todos os que não sentiam.

Mas ela – ela era feliz de dentro. E era isso que importava para sua vida.

Natália Maeda

São Paulo, 26 de agosto de 2006